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O futebol jogado em terreno desconhecido

  • Expresso
  • Imprensa
  • Pedro Candeias
  • 3/14/2020
  • 7 min

Ligas portuguesa, espanhola, francesa, italiana e inglesa estão suspensas. Euro-2020 será provavelmente adiado O futebol jogado em terreno desconhecido Pedro Candeias | [email protected] Muitas vezes, o Mundo precisa de um símbolo, e apareceu Daniele Rugani, defesa central suplente da Juventus, que tem sob contrato Cristiano Ronaldo. Rugani era perfeito para o caso: um jogador robusto de perfil baixo, mas suficientemente próximo da estrela mais mediática do desporto para alertar consciências e relembrar-nos que ninguém está livre da Covid-19; além do mais, Rugani é italiano, joga na paralisada Itália e estava assintomático quando o teste deu positivo. Tudo era, então, possível, mesmo a mais inverosímil das coisas, como suspender campeonatos. No entanto, aconteceu. Na Serie A, de Itália. Na La Liga, de Espanha. Na Ligue 1, de França. E na Liga portuguesa, claro. Todas por tempo indeterminado, o que implica inevitavelmente mudanças de calendário [ver entrevista ao lado] e a entrada em território desconhecido no plano da regulamentação. A UEFA resistiu enquanto pôde, mas acabou por adiar os encontros da Liga Europa e da Liga dos Campeões que seriam disputados nas próximas terça, quarta e quinta-feira — ao todo, 12 jogos, respetivamente dos quartos de final e dos oitavos de final destas competições. À hora que escrevemos, a Bundesliga, da Alemanha, discute o que fazer internamente, mas o presidente da federação local sugeriu uma medida radical que passa por dar a época como terminada, sem determinar o campeão, quem se apura para ou quem desce de divisão. A Premier League debateu-se com casos positivos — Mikel Arteta, treinador do Arsenal, e Callum Hud-son-Odoi, jogador do Chelsea —, críticas violentas — "é absurdo jogarmos enquanto morrem pessoas", disse o português Nuno Espírito Santo, treinador do Wolverhampton —, e a pressão social. Era provável que lá, onde dizem que nasceu o futebol, o futebol também parasse. E parou, até 4 de abril, anúncio feito às 1lh de sexta-feira. Os passos estão dados para que algo verdadeiramente inédito aconteça: o adiamento do Campeonato da Europa de futebol. O Euro transeuropeu O "L'Équipe", de França, escreveu na quinta-feira que o adiamento do Campeonato da Europa deste verão poderia ser adiado para 2021. A prova que já consagrou dez seleções [Alemanha (3 vezes), Espanha (3), França (2), União Soviética, Itália, Portugal, Holanda, Checoslováquia, Dinamarca e Grécia], realiza-se a cada quatro anos, desde i960, tem em Michel Platini e Cristiano Ronaldo (nove golos) os maiores goleadores, jamais foi interrompida. A confirmação deve chegar na próxima terça-feira, em sede de reunião extraordinária para debater o problema, sabe o Expresso, junto de fontes da UEFA. Alexandre Mestre, antigo secretário de Estado do Desporto e especialista em direi- to desportivo, diz que o adiamento pode ser regulamentado. "O regulamento tem uma norma relevante, sobre circunstâncias não previstas, que pode servir para estes casos. Aí se prevê expressamente que nos casos de força maior o Painel de Emergência da UEFA, ou se não possível este, o presidente da UEFA, ou na ausência deste, o secretário-geral, tomem as medidas devidas, que serão finais, ou seja, definitivas". Há uma série de factos a legitimar esta posição, o primeiro dos quais relacionado com os campeonatos nacionais. Um pouco por toda a Europa, está protocolarmente instituído que as ligas têm de terminar, no máximo, até 30 de junho; face à suspensão provocada pela pandemia, as jornadas terão forçosamente de ser adiadas, talvez para lá do limite regulamentar, o que colidirá com a realização do Campeonato da Europa, cujo início está marcado para 12 de junho, precisamente com o Turquia-Itália. Em casos assim, abrem-se exceções e os campeonatos podem, por exemplo, terminar em julho. Por outro lado, a suspensão dos campeonatos significa a cessação de todas as atividades dos clubes: o jogador não só não joga como não treina, e isso traduz-se num abaixamento de forma. Assim, é natural que, quando as ligas retomarem, suceda uma segunda pré-época; de outra maneira, o risco de lesões é exponencialmente maior. Mas, antes de tudo isto (o adiamento, os regulamentos, a sobreposição de calendários) se pôr em equação, a própria natureza do Euro-2020 desaconselha a sua realização este ano. A UEFA quis abrir a competição, espalhando-a pelo Velho Continente, havendo jogos marcados em 12 cidades de 12 países: Roma (Itália), Amesterdão (Holanda), Baku (Azerbaijão), Bilbau (Espanha), Bucareste (Roménia), Budapeste (Hungria), Copenhaga (Dinamarca), Dublin (Irlanda), Glasgow, (Escócia), Londres (Inglaterra), Munique (Alemanha) e São Petersburgo (Rússia). Este coro-navírus, que se propaga a uma "velocidade sem precedentes" de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), encontraria o ambiente adequado neste contexto. Além disto, os governos dos países--sede estarão mais preocupados em garantir a segurança e o eventual regresso à normalidade do que em organizar uma prova desta dimensão. Alexandre Mestre fala "numa norma específica sobre seguros, estipulando que a federação que sedeia a fase final do torneio deve avaliar os riscos envolvidos com a organização e realização dessa fase final, bem como, a expensas próprias, diligenciar na contratualiza-ção de seguros que cubram os riscos emergentes da preparação, organização e acolhimento da fase final". É previsível que não se chegue a este ponto e fonte da UEFA desabafa ao Expresso: "Temos de perceber que o futebol é importante, mas não é a coisa mais importante de todas. E há aqui um lado social: se o futebol fica suspenso, é porque esta pandemia é realmente grave e pode alertar as pessoas para o que se está a passar." O futebol como símbolo. ----- Três perguntas a Alexandre Mestre Antigo secretário de Estado do Desporto A figura da suspensão da Liga portuguesa está prevista no Regulamento? Nos termos do Artigo 4ª, n° 1 do Regulamento de Competições da Liga, "a época desportiva das competições organizadas pela Liga Portugal tem início em 1 de julho e termina em 30 de junho do ano seguinte". Esta é a regra. Mas há uma exceção, consagrada no n° 2 do mesmo preceito: "A Liga Portugal poderá, em caso de força maior e em circunstâncias excecionais, devidamente justificadas, prorrogar o termo da época desportiva, assim como suspender total ou parcialmente qualquer competição oficial por si organizada." Não me oferece dúvidas de que, mesmo que se entendesse que o caso do coronavírus não é um caso de força maior — posição que não sufrago — sempre esta epidemia se deveria subsumir ao conceito de "circunstâncias excecionais" — totalmente atípicas, incomuns, não usuais, não expectáveis — e amplamente justificadas pela necessidade de proteção da saúde pública. Não havendo prazo limite para essa suspensão, entendo que a mesma pode durar enquanto durarem o caso de força maior ou as circunstâncias excecionais. Como se apura, por exemplo, o campeão? Como estamos a falar de uma suspensão, e não de uma interrupção ou de um cancelamento, significa que ao retomar-se a competição disputam-se subsequentemente os jogos em falta à data da determinação da suspensão. Por conseguinte, sempre será um dia finalizada a competição e homologada a respetiva classificação, extraindo-se daí quem é campeão, quem acede às competições europeias e quem desce de divisão. Um retomar da competição nunca deveria coincidir com a realização do Euro-2020. Aliás, o Regulamento de Competições da Liga, no Artigo 42ª, n° 1, subordina a calendarização da competição à realização de fases finais de Campeonatos da Europa e do Mundo. Além da questão da obrigatoriedade de cedência, pelos clubes, dos jogadores às seleções nacionais. O que acontece a quem comprou bilhetes e passes anuais? De acordo com o Artigo 106°, n° 6 do Regulamento de Competições da Liga: "Quando não se iniciar qualquer jogo oficial, os portadores de bilhetes de ingresso têm direito ao reembolso das respetivas importâncias a efetuar nos dois dias úteis seguintes pela entidade que procedeu à organização do jogo, mediante a apresentação do respetivo bilhete completo, excluídos os destacáveis de controlo." Ora, quem organiza os jogos são as sociedades desportivas, pelo que a estas competirá reembolsar aqueles que a elas adquiriram o(s) bilhete(s). Quanto a game boxes e afins, dependerá, caso a caso, dos termos contratualizados entre as sociedades desportivas e os sócios/adeptos adquirentes desse produto, mas acredito que siga a mesma lógica e que seja nessa contratualização definido o processo desse reembolso.