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Como foi montado o negócio mundial das vacinas para a covid-19

  • Expresso
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  • 4/18/2021 8:48 AM
  • 7 min

Como foi montado o negócio mundial das vacinas para a covid-19 Parcerias. Pandemia dá impulso à indústria farmacêutica, mas atrasos nas entregas persistem. Cooperação entre empresas é chave para maximizar a produção Mercado mundial de vacinas ainda em construção Maria João Bourbon e Miguel Prado Quando, em outubro de 2019, a biotecnológica alemã BioNTech captou 150 milhões de dólares com a dispersão de parte do seu capital no Nasdaq, os seus fundadores, que haviam criado a empresa em 2008, estariam longe de adivinhar que pouco mais de um ano depois a empresa estaria a valer em bolsa quase dez vezes o valor de entrada naquela praça norte-americana. E recentemente as contas de 2020 da BioNTech confirmaram que a pandemia deu à empresa um impulso ímpar. A faturação anual da biotecnológica com sede em Mainz mais do que quadruplicou. E das receitas comerciais, de €303 milhões, a “fatia de leão” veio das vacinas para a covid-19: €270 milhões. Desses €270 milhões, menos de um décimo (precisamente €20,6 milhões) veio das vendas diretas de vacinas para a covid-19 no mercado doméstico alemão. A maior parte da faturação resultou da parceria firmada com a norte-americana Pfizer, uma das maiores companhias farmacêuticas do mundo, que aproveitou a especialização da BioNTech para dar resposta ao desafio global da vacinação. Só no quarto trimestre de 2020 a BioNTech registou um lucro de €367 milhões, comparando com perdas de €58 milhões em igual período do ano anterior, o que mostra o poder de fogo que a vacina para a covid-19 teve para a biotecnológica alemã, em grande parte alavancada na aliança com a gigante Pfizer. Esta não seria, aliás, a única parceria empresarial à boleia da vacinação para a covid-19. Também a francesa Sanofi se juntou à britânica GSK, por exemplo. Tal como a alemã CureVac firmou parcerias com a Bayer e a GSK. A pandemia evidenciou, como nunca, a necessidade de cooperação entre companhias farmacêuticas. Permitiu encurtar dos convencionais 15 anos para apenas um o período de desenvolvimento e ensaios de novos produtos, pese embora várias das vacinas agora a entrar no mercado continuem a apresentar resultados polémicos, seja pelo nível de eficácia seja pelos efeitos adversos. O meu país primeiro O que a pandemia expôs também foi um problema logístico que até hoje, mais de um ano após a primeira vaga, permanece por resolver: a falta de capacidade industrial para fabricar a quantidade de vacinas de que o mundo precisa com urgência. O ritmo de produção em massa destas vacinas foi sobrestimado. Assumindo que cada vacina exige a administração de duas doses, são necessárias cerca de 11 mil milhões de doses para vacinar 70% da população mundial — o ponto em que se considera possível alcançar a imunidade de grupo. Mas, até à data, apenas 814 milhões de doses foram administradas em 152 países (de acordo com dados recolhidos pela “Bloomberg”), suficientes para vacinar apenas 5% da população mundial. A ameaça de limitar o comércio internacional de vacinas “tende a prejudicar todos”, diz o economista Pita Barros A vacinação contra a covid-19 é um desafio global, marcado por guerras entre Estados para serem os primeiros compradores, atrasos na distribuição de vacinas e, por vezes, prazos de entrega estipulados em contratos que não são cumpridos. De tal forma, que Bruxelas chegou mesmo a colocar em cima da mesa a hipótese de obrigar os fabricantes a partilharem as patentes e a ameaçar restringir as exportações de vacinas produzidas na UE para países que, como os Estados Unidos (EUA) ou o Reino Unido, têm retido as vacinas produzidas no mercado interno, numa lógica de my country first (‘o meu país primeiro'). Algo que o primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, chegou mesmo a pôr em prática, ao bloquear a exportação para a Austrália de 250 mil vacinas produzidas no país pela AstraZeneca/Oxford. Mas que pode trazer consequências negativas para a população. “A ameaça de limitar o comércio internacional de vacinas não é boa ideia em geral. Este tipo de ‘guerras comerciais' tende a prejudicar todos”, defende o professor catedrático da Nova-SBE Pedro Pita Barros, especializado em Economia da Saúde. “O elemento central aqui é fazer com que as empresas cumpram os contratos que assumiram, em vez procurarem escapatórias. Colocar o problema ao nível das relações entre países implicitamente desresponsabiliza as empresas, o que não deverá suceder.” Quebrar ou não quebrar? Vários apelos têm surgido no espaço europeu, incluindo em Portugal, para que as patentes sejam quebradas. Muitos referem o facto de estarmos perante um cenário de catástrofe de saúde pública e de as empresas terem contado com financiamento público para o desenvolvimento das vacinas (ainda que as farmacêuticas asseverem que este representa uma pequena parte quando comparado com o seu investimento nas vacinas), criticando os lucros das farmacêuticas à boleia da covid-19. Recentemente, mais de 80 personalidades portuguesas — entre elas o ex-presidente do Infarmed José Aranda da Silva — apelaram para que as vacinas contra a covid-19 sejam consideradas um bem de interesse comum e para que Bruxelas não submeta este processo às leis do mercado. Mas será que as licenças compulsórias (obrigatórias) ou as expropriações de patentes conseguiriam forçar o cumprimento dos prazos de entrega de vacinas por parte das farmacêuticas? Os especialistas ouvidos pelo Expresso consideram que não, uma vez que não resolveriam os atrasos na produção. “Mesmo tendo uma licença das empresas titulares das patentes, os Estados teriam que ir bater à mesma porta para a produção da vacina”, explica o advogado especialista em propriedade intelectual António Andrade. “Há muito poucas empresas originadoras de investigação, com capacidade produtiva e tecnológica para produzi-la.” A melhor forma de maximizar a produção de vacinas passa pelos acordos comerciais, defendem as farmacêuticas Para Pita Barros, as licenças compulsórias só resolvem os constrangimentos na entrega de vacinas “se houver possibilidades de licenciamento de produção que não estejam a ser exploradas neste momento”. “Se não houver possibilidade de alargar a produção, a quebra de patente não tem qualquer efeito”, sublinha, acrescentando que o preço, que seria também afetado, não é muito relevante, dados os contratos estabelecidos e o compromisso das empresas em não usarem os direitos de propriedade intelectual para fixarem preços elevados. Quebrar patentes pode até ser contraproducente. “A patente pressupõe um monopólio que é concedido pelo Estado a uma determinada empresa (que tem o exclusivo da comercialização do medicamento ou vacina), com uma compensação para a comunidade: a divulgação pública da investigação e informação científica e tecnológica associada a esse medicamento ou vacina”, refere o sócio da Abreu Advogados António Andrade. “Com base nessa divulgação, será permitida uma investigação complementar mais rápida e eficiente relativamente a novas estirpes do vírus.” Ao quebrar-se a patente isto poderia perder-se e estar-se-ia a desincentivar a inovação e investigação futuras. Para os especialistas, a melhor forma de maximizar a produção de vacinas passa pelo licenciamento por parte das empresas que têm os direitos de propriedade intelectual — “incluindo produção fora dos países da UE”, realça Pita Barros. A Sanofi, por exemplo, vai investir €400 milhões nos próximos cinco anos numa unidade de produção de ponta e tecnologia digital em Singapura para reforçar o fabrico de vacinas na região asiática. Mas é preciso apostar também na produção nos países em desenvolvimento, nota o economista, por forma a “assegurar que esses países beneficiam do esforço global de vacinação”. Estes acordos comerciais já estão, aliás, a ser firmados entre as várias empresas com capacidade produtiva. A Moderna está “a trabalhar com parceiros de produção para disponibilizar a vacina” na Europa, como a Lonza na Suíça, a Rovi em Espanha e a Recipharm em França, adianta a empresa. A Sanofi Pasteur — embora ainda tenha as suas duas vacinas em fase de desenvolvimento clínico — cedeu as instalações de produção em Frankfurt à BioNTech e a fábrica em Marcy l'Etoile, em França, à Janssen, indica a diretora-geral da Sanofi Portugal, Helena Freitas. Já a Pfizer tem estabelecido parcerias externas para a produção e distribuição da sua vacina junto de outras empresas, como a Sanofi e a Novartis. “O objetivo inicialmente fixado para a nossa produção, que era de 1100 milhões de doses para 2021, foi rapidamente ampliado para 1300 milhões”, diz Paulo Teixeira, diretor-geral da Pfizer Portugal. “Fruto das alterações à nossa produção e ao estabelecimento de parceiras elevámos a nossa meta para 2000 milhões de doses para o ano de 2021 e mais recentemente anunciámos que este objetivo foi ampliado para 2,5 mil milhões.”


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How the world vaccine business for covid-19 was set up

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How the world vaccine business for covid-19 was set up Partnerships. Pandemic gives impetus to the pharmaceutical industry, but delays in deliveries persist. Cooperation between companies is key to maximize production World vaccine market still under construction Maria João Bourbon and Miguel Prado When, in October 2019, German biotechnology company BioNTech raised $ 150 million by dispersing part of its capital in Nasdaq, its founders, who had created the company in 2008, would be far from guessing that just over a year later the company would be worth almost ten times the entry price in that North American square on the stock exchange. And recently BioNTech's 2020 accounts confirmed that the pandemic gave the company a unique boost. The annual turnover of biotechnology based in Mainz has more than quadrupled. And of the commercial income, of € 303 million, the “lion's share” came from vaccines for covid-19: € ​​270 million. Of that € 270 million, less than a tenth (precisely € 20.6 million) came from direct vaccine sales to covid-19 on the German domestic market. Most of the billing resulted from the partnership signed with the North American Pfizer, one of the largest pharmaceutical companies in the world, which took advantage of BioNTech's specialization to respond to the global challenge of vaccination. In the fourth quarter of 2020 alone, BioNTech recorded a profit of € 367 million, compared to losses of € 58 million in the same period of the previous year, which shows the firepower that the vaccine for covid-19 had for German biotechnology , largely leveraged in the alliance with giant Pfizer. This would not, in fact, be the only business partnership hitchhiking from vaccination to covid-19. The French Sanofi also joined the British GSK, for example. Like the German CureVac, it entered into partnerships with Bayer and GSK. The pandemic has shown, as never before, the need for cooperation between pharmaceutical companies. It has made it possible to shorten the period of development and testing of new products from the conventional 15 years to just one, despite the fact that several of the vaccines now entering the market continue to show controversial results, either due to the level of effectiveness or the adverse effects. My country firstWhat the pandemic exposed was also a logistical problem that, even today, more than a year after the first wave, remains unresolved: the lack of industrial capacity to manufacture the quantity of vaccines that the world urgently needs. The rate of mass production of these vaccines has been overestimated. Assuming that each vaccine requires two doses, about 11 billion doses are needed to vaccinate 70% of the world population - the point at which it is considered possible to achieve group immunity. But, to date, only 814 million doses have been administered in 152 countries (according to data collected by "Bloomberg"), enough to vaccinate just 5% of the world population. The threat of limiting the international vaccine trade "tends to harm everyone", says economist Pita Barros Vaccination against covid-19 is a global challenge, marked by wars between states to be the first buyers, delays in the distribution of vaccines and, sometimes, delivery times stipulated in contracts that are not fulfilled. In such a way, that Brussels even put on the table the possibility of forcing manufacturers to share patents and threatening to restrict exports of vaccines produced in the EU to countries such as the United States (USA) or the United Kingdom , have retained vaccines produced domestically, in a logic of my country first ('my country first'). Something that the Italian Prime Minister, Mario Draghi, even put into practice, by blocking the export to Australia of 250 thousand vaccines produced in the country by AstraZeneca / Oxford. But that can have negative consequences for the population. “The threat of limiting the international vaccine trade is not a good idea in general. This type of 'trade wars' tends to harm everyone ”, defends Nova-SBE professor Pedro Pita Barros, specialized in Health Economics.“ The central element here is to make companies comply with the contracts they have assumed, instead looking for escapes. Putting the problem at the level of relations between countries implicitly disclaims responsibility for companies, which should not happen. ” To break or not to break?Several appeals have appeared in the European space, including in Portugal, for patents to be broken. Many refer to the fact that we are facing a public health catastrophe scenario and that companies have had public funding for the development of vaccines (although pharmaceutical companies assert that this represents a small part when compared to their investment in vaccines), criticizing the profits of the pharmaceutical companies to the ride from the covid-19. Recently, more than 80 Portuguese personalities - among them the ex-president of Infarmed José Aranda da Silva - have called for covid-19 vaccines to be considered a good of common interest and for Brussels not to subject this process to the laws of the market . But would compulsory (compulsory) licenses or patent expropriations be able to force pharmaceutical companies to comply with vaccine delivery deadlines? The experts interviewed by Expresso consider it not, since they would not solve the delays in production. “Even with a license from the companies holding the patents, the States would have to go to the same door to produce the vaccine”, explains the lawyer specialized in intellectual property António Andrade. "There are very few companies that originate research, with the productive and technological capacity to produce it." The best way to maximize the production of vaccines is through commercial agreements, defend the pharmaceutical companies For Pita Barros, compulsory licenses only solve the constraints in the delivery of vaccines "if there are possibilities for licensing production that are not being explored at this time". "If there is no possibility of expanding production, the patent breach has no effect", he stresses, adding that the price, which would also be affected, is not very relevant, given the contracts established and the companies' commitment not to use the intellectual property rights to set high prices.Breaking patents can even be counterproductive. “The patent presupposes a monopoly that is granted by the State to a certain company (which has the exclusive right to commercialize the medicine or vaccine), with a compensation for the community: the public disclosure of research and scientific and technological information associated with that medicine or vaccine, ”says partner at Abreu Advogados António Andrade. "Based on this disclosure, a faster and more efficient complementary investigation for new strains of the virus will be allowed." By breaking the patent this could be lost and would discourage future innovation and research. For experts, the best way to maximize vaccine production is through licensing by companies that have intellectual property rights - "including production outside EU countries", emphasizes Pita Barros. Sanofi, for example, will invest € 400 million over the next five years in a state-of-the-art production facility and digital technology in Singapore to strengthen vaccine manufacturing in the Asian region. But it is also necessary to invest in production in developing countries, notes the economist, in order to "ensure that these countries benefit from the global vaccination effort". These commercial agreements are, moreover, already being signed between the various companies with productive capacity. Moderna is "working with production partners to make the vaccine available" in Europe, such as Lonza in Switzerland, Rovi in ​​Spain and Recipharm in France, the company said. Sanofi Pasteur - although it still has its two vaccines in the phase of clinical development - has transferred the production facilities in Frankfurt to BioNTech and the factory in Marcy l'Etoile, France, to Janssen, says the director-general of Sanofi Portugal, Helena Freitas. Pfizer has already established external partnerships for the production and distribution of its vaccine with other companies, such as Sanofi and Novartis. “The objective initially set for our production, which was 1100 million doses for 2021, was quickly increased to 1300 million”, says Paulo Teixeira, general director of Pfizer Portugal. “As a result of changes in our production and the establishment of partners, we raised our target to 2000 million doses for the year 2021 and more recently we announced that this goal has been increased to 2.5 billion.”


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Como foi montado o negócio mundial das vacinas para a covid-19

Como foi montado o negócio mundial das vacinas para a covid-19 Parcerias. Pandemia dá impulso à indústria farmacêutica, mas atrasos nas entregas persistem. Cooperação entre empresas é chave para maximizar a produção Mercado mundial de vacinas ainda em construção Maria João Bourbon e Miguel Prado Quando, em outubro de 2019, a biotecnológica alemã BioNTech captou 150 milhões de dólares com a dispersão de parte do seu capital no Nasdaq, os seus fundadores, que haviam criado a empresa em 2008, estariam longe de adivinhar que pouco mais de um ano depois a empresa estaria a valer em bolsa quase dez vezes o valor de entrada naquela praça norte-americana. E recentemente as contas de 2020 da BioNTech confirmaram que a pandemia deu à empresa um impulso ímpar. A faturação anual da biotecnológica com sede em Mainz mais do que quadruplicou. E das receitas comerciais, de €303 milhões, a “fatia de leão” veio das vacinas para a covid-19: €270 milhões. Desses €270 milhões, menos de um décimo (precisamente €20,6 milhões) veio das vendas diretas de vacinas para a covid-19 no mercado doméstico alemão. A maior parte da faturação resultou da parceria firmada com a norte-americana Pfizer, uma das maiores companhias farmacêuticas do mundo, que aproveitou a especialização da BioNTech para dar resposta ao desafio global da vacinação. Só no quarto trimestre de 2020 a BioNTech registou um lucro de €367 milhões, comparando com perdas de €58 milhões em igual período do ano anterior, o que mostra o poder de fogo que a vacina para a covid-19 teve para a biotecnológica alemã, em grande parte alavancada na aliança com a gigante Pfizer. Esta não seria, aliás, a única parceria empresarial à boleia da vacinação para a covid-19. Também a francesa Sanofi se juntou à britânica GSK, por exemplo. Tal como a alemã CureVac firmou parcerias com a Bayer e a GSK. A pandemia evidenciou, como nunca, a necessidade de cooperação entre companhias farmacêuticas. Permitiu encurtar dos convencionais 15 anos para apenas um o período de desenvolvimento e ensaios de novos produtos, pese embora várias das vacinas agora a entrar no mercado continuem a apresentar resultados polémicos, seja pelo nível de eficácia seja pelos efeitos adversos. O meu país primeiro O que a pandemia expôs também foi um problema logístico que até hoje, mais de um ano após a primeira vaga, permanece por resolver: a falta de capacidade industrial para fabricar a quantidade de vacinas de que o mundo precisa com urgência. O ritmo de produção em massa destas vacinas foi sobrestimado. Assumindo que cada vacina exige a administração de duas doses, são necessárias cerca de 11 mil milhões de doses para vacinar 70% da população mundial — o ponto em que se considera possível alcançar a imunidade de grupo. Mas, até à data, apenas 814 milhões de doses foram administradas em 152 países (de acordo com dados recolhidos pela “Bloomberg”), suficientes para vacinar apenas 5% da população mundial. A ameaça de limitar o comércio internacional de vacinas “tende a prejudicar todos”, diz o economista Pita Barros A vacinação contra a covid-19 é um desafio global, marcado por guerras entre Estados para serem os primeiros compradores, atrasos na distribuição de vacinas e, por vezes, prazos de entrega estipulados em contratos que não são cumpridos. De tal forma, que Bruxelas chegou mesmo a colocar em cima da mesa a hipótese de obrigar os fabricantes a partilharem as patentes e a ameaçar restringir as exportações de vacinas produzidas na UE para países que, como os Estados Unidos (EUA) ou o Reino Unido, têm retido as vacinas produzidas no mercado interno, numa lógica de my country first (‘o meu país primeiro'). Algo que o primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, chegou mesmo a pôr em prática, ao bloquear a exportação para a Austrália de 250 mil vacinas produzidas no país pela AstraZeneca/Oxford. Mas que pode trazer consequências negativas para a população. “A ameaça de limitar o comércio internacional de vacinas não é boa ideia em geral. Este tipo de ‘guerras comerciais' tende a prejudicar todos”, defende o professor catedrático da Nova-SBE Pedro Pita Barros, especializado em Economia da Saúde. “O elemento central aqui é fazer com que as empresas cumpram os contratos que assumiram, em vez procurarem escapatórias. Colocar o problema ao nível das relações entre países implicitamente desresponsabiliza as empresas, o que não deverá suceder.” Quebrar ou não quebrar? Vários apelos têm surgido no espaço europeu, incluindo em Portugal, para que as patentes sejam quebradas. Muitos referem o facto de estarmos perante um cenário de catástrofe de saúde pública e de as empresas terem contado com financiamento público para o desenvolvimento das vacinas (ainda que as farmacêuticas asseverem que este representa uma pequena parte quando comparado com o seu investimento nas vacinas), criticando os lucros das farmacêuticas à boleia da covid-19. Recentemente, mais de 80 personalidades portuguesas — entre elas o ex-presidente do Infarmed José Aranda da Silva — apelaram para que as vacinas contra a covid-19 sejam consideradas um bem de interesse comum e para que Bruxelas não submeta este processo às leis do mercado. Mas será que as licenças compulsórias (obrigatórias) ou as expropriações de patentes conseguiriam forçar o cumprimento dos prazos de entrega de vacinas por parte das farmacêuticas? Os especialistas ouvidos pelo Expresso consideram que não, uma vez que não resolveriam os atrasos na produção. “Mesmo tendo uma licença das empresas titulares das patentes, os Estados teriam que ir bater à mesma porta para a produção da vacina”, explica o advogado especialista em propriedade intelectual António Andrade. “Há muito poucas empresas originadoras de investigação, com capacidade produtiva e tecnológica para produzi-la.” A melhor forma de maximizar a produção de vacinas passa pelos acordos comerciais, defendem as farmacêuticas Para Pita Barros, as licenças compulsórias só resolvem os constrangimentos na entrega de vacinas “se houver possibilidades de licenciamento de produção que não estejam a ser exploradas neste momento”. “Se não houver possibilidade de alargar a produção, a quebra de patente não tem qualquer efeito”, sublinha, acrescentando que o preço, que seria também afetado, não é muito relevante, dados os contratos estabelecidos e o compromisso das empresas em não usarem os direitos de propriedade intelectual para fixarem preços elevados. Quebrar patentes pode até ser contraproducente. “A patente pressupõe um monopólio que é concedido pelo Estado a uma determinada empresa (que tem o exclusivo da comercialização do medicamento ou vacina), com uma compensação para a comunidade: a divulgação pública da investigação e informação científica e tecnológica associada a esse medicamento ou vacina”, refere o sócio da Abreu Advogados António Andrade. “Com base nessa divulgação, será permitida uma investigação complementar mais rápida e eficiente relativamente a novas estirpes do vírus.” Ao quebrar-se a patente isto poderia perder-se e estar-se-ia a desincentivar a inovação e investigação futuras. Para os especialistas, a melhor forma de maximizar a produção de vacinas passa pelo licenciamento por parte das empresas que têm os direitos de propriedade intelectual — “incluindo produção fora dos países da UE”, realça Pita Barros. A Sanofi, por exemplo, vai investir €400 milhões nos próximos cinco anos numa unidade de produção de ponta e tecnologia digital em Singapura para reforçar o fabrico de vacinas na região asiática. Mas é preciso apostar também na produção nos países em desenvolvimento, nota o economista, por forma a “assegurar que esses países beneficiam do esforço global de vacinação”. Estes acordos comerciais já estão, aliás, a ser firmados entre as várias empresas com capacidade produtiva. A Moderna está “a trabalhar com parceiros de produção para disponibilizar a vacina” na Europa, como a Lonza na Suíça, a Rovi em Espanha e a Recipharm em França, adianta a empresa. A Sanofi Pasteur — embora ainda tenha as suas duas vacinas em fase de desenvolvimento clínico — cedeu as instalações de produção em Frankfurt à BioNTech e a fábrica em Marcy l'Etoile, em França, à Janssen, indica a diretora-geral da Sanofi Portugal, Helena Freitas. Já a Pfizer tem estabelecido parcerias externas para a produção e distribuição da sua vacina junto de outras empresas, como a Sanofi e a Novartis. “O objetivo inicialmente fixado para a nossa produção, que era de 1100 milhões de doses para 2021, foi rapidamente ampliado para 1300 milhões”, diz Paulo Teixeira, diretor-geral da Pfizer Portugal. “Fruto das alterações à nossa produção e ao estabelecimento de parceiras elevámos a nossa meta para 2000 milhões de doses para o ano de 2021 e mais recentemente anunciámos que este objetivo foi ampliado para 2,5 mil milhões.”