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Liberdade é não ter medo

  • Expresso
  • Online
  • 5/24/2020
  • 15 min

Liberdade é não ter medo Com o país há três semanas em desconfinamento, muitos portugueses resistem a voltar à rua, aos restaurantes, aos centros de saúde e até aos locais de trabalho. Tal como o vírus, também o medo é contagioso. E ainda não desapareceu Não há nada que assuste mais Filipe [nome fictício] do que voltar à faculdade onde dá aulas há vários anos. As idas ao supermercado preocupam-no, tanto é que as evita e, quando não consegue, evita pelo menos cruzar-se com outras pessoas, se vira num corredor e percebe que não está sozinho, recua e escolhe outro onde não veja ninguém. Na farmácia o mesmo, mantém-se afastado vários metros dos que estão à frente ou atrás na fila, e na rua, a que pouco sai e quando sai é apenas para um “curto passeio higiénico” à volta da casa onde vive, em Lisboa, também. “Desvio-me sempre das outras pessoas.” Na verdade, até já se habituou a isso, mas à ideia de voltar à faculdade é que não. Só de pensar nisso fica nervoso, como se o ar que sentiu faltar-lhe quando se começou a falar do vírus e de “grupos de risco” e havia “pouca informação” — Filipe, é asmático e a asma já lhe trouxe ansiedade noutras alturas —, voltasse a faltar-lhe, e voltassem também os pesadelos “estranhos” e as insónias, e voltasse a acordar todos os dias com a certeza de que todos os problemas eram, afinal, muito mais graves, porque é isso que fazem as noites mal dormidas, ampliam as coisas da cabeça — é o cansaço. Em meados de abril, o Governo deu indicações às universidades e politécnicos para que começassem a preparar o regresso às aulas presenciais a partir do início de maio. A tutela deu um prazo de duas semanas às instituições para elaborarem planos para o levantamento “gradual” das medidas de contenção aplicadas no contexto da pandemia de covid-19, devendo ser privilegiadas as aulas práticas e laboratoriais, bem como as “avaliações finais”. E são precisamente os exames que preocupam o docente universitário, de 52 anos. Tem “medo” de estar fechado numa sala com alunos, mesmo “que estes estejam de máscara”. “As turmas costumam ser enormes, 70 ou 80 alunos fechados num auditório, e isso faz-me confusão.” Lembra-se de dar testes nessas salas enormes, “e às tantas tinha de abrir as portas porque com toda a gente ali dentro a respirar parecia que faltava o oxigénio”. Da faculdade espera “sensibilidade” para lidar com este tipo de preocupações, espera que sejam tomadas medidas como, por exemplo, “reduzir a circulação de pessoas dentro do edifício para metade”. O que não lhe peçam é para “dar aulas à moda antiga”. Os dados divulgados até ao momento mostram que Filipe não está sozinho. Segundo uma sondagem realizada pelo ISCTE e pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS) para o Expresso e SIC cujos resultados foram divulgados na semana passada, a maioria dos portugueses considera “muito” ou “algo arriscado” andar de transportes públicos (89%), ir a um hospital ou centro de saúde (83%), ir a um café ou restaurante (81%), ir a um hipermercado ou centro comercial (79%), ir à praia (69%), ir a um banco ou aos correios (65%), e deslocar-se a uma mercearia ou loja de comércio tradicional (59%). A reabertura das creches (18 de maio) e do ensino pré-escolar (prevista para 1 de junho) também é vista com apreensão, e a maioria dos inquiridos considera, aliás, que é demasiado cedo para tal. A única exceção são os locais de trabalho ou “locais de estudos”, a que apenas 49% consideram arriscado voltar. A maioria dos inquiridos (53%) acredita mesmo que “não se está a esperar o tempo suficiente” antes de levantar as restrições que foram impostas para conter os casos de contágios pelo vírus. “O medo é bom” Como a generalidade dos sentimentos, o medo não tem uma ficha que o ligue e desligue. “A origem do medo, que é o vírus, não desapareceu. Ele continua cá”, lembra Filipa Machado Vaz. E se o vírus se mantém vivo, o medo também. “Durante dois meses disseram-nos que era contagioso e grave, e hoje a Direção-Geral da Saúde (DGS) continua a dar os números, as mortes, continuamos em estado de alerta. Mas o discurso mudou. É como dizer ‘estamos em guerra, mas saiam de casa'.” Doutorada em psicologia clínica, Filipa Machado Vaz é responsável pelo Acalma-online, um projeto voluntário de sessões gratuitas de apoio psicológico, por videochamada, que surgiu durante a pandemia. Em cerca de dois meses, recebeu a candidatura de mais de 200 profissionais, e pelo menos metade está a dar sessões, num total de perto de mil agendamentos. O que se ouve, aponta, é “muita gente a temer ter medo”. “O medo é bom”, garante Filipa Machado Vaz, recorrendo à metáfora. “Puseram-nos no meio da selva e gritaram ‘vem aí um leão'. É o medo que nos faz ir buscar armaduras, e dá-las a quem vai para a linha da frente, e faz os outros esconderem-se atrás da árvore. Sem medo, o leão come-nos.” Foi também por ele que se abriram hospitais de campanha, como o do Porto, onde esteve até que deixou de ser precisa. “É bom ter medo”, repete. Foi ainda o medo, algum importado das experiências de Espanha e Itália, que levou os portugueses a recolherem antes de ser o Governo a exigi-lo. Estávamos a 16 de março quando o primeiro-ministro, António Costa, deu uma entrevista ao “Jornal da Noite”, da SIC, onde abordou o que era ainda uma hipótese, apesar de muito provável: decretar o estado de emergência. Lembrando que a competência pertencia ao Presidente da República, Costa mostrava reticências e deixava avisos. “Muitas pessoas têm falado de limitar a liberdade de circulação. Olhando a prazo, porque temos de ter noção de que não estamos a falar de uma crise que dure duas semanas, mas que durará seguramente alguns meses, nós podemos ter situações inversas, que é de termos de ter meios legais para obrigar determinadas empresas a funcionar, fazer requisição civil de determinadas pessoas em certas profissões que não estejam a trabalhar ou que se recusem a trabalhar.” Premonitório? Dois dias depois, Marcelo Rebelo de Sousa decretou mesmo o estado de emergência, entretanto duas vezes renovado, até que, na madrugada de 4 de maio, Portugal passou ao estado de calamidade, um grau abaixo, exatamente dois meses após os primeiros casos positivos registados no país. E numa segunda-feira precedida de um fim de semana em que ninguém pôde circular entre concelhos, nem a pretexto de celebrar o Dia da Mãe. É nesses curtos intervalos que Filipa Machado Vaz vê parte da explicação para o atual retraimento. “Não precisamos de comunicar em opostos. Primeiro disseram-nos ‘não saiam de casa', tivemos a polícia nas ruas, quase a empurrar-nos para dentro, em alguns casos nem sequer de carro podíamos andar, não podíamos fazer nada. E, de repente, estamos a falar de recuperar o turismo e ter dois metros de distância na praia?” O medo não se liga e desliga. “Temos de pensar no quanto as emoções no discurso impactam as nossas ações.” Os portugueses fecharam-se antes de lhes pedirem, mas resistem a sair, depois de lhes pedirem. Para muitos, sobretudo para os que contactaram com o vírus ou têm histórico de outras doenças e episódios traumáticos, o desconfinamento é também interior. “Só há uma forma de lidar com o medo: enfrentando-o”, nota a psicóloga. “Tenho medo do contágio? Então devo enfrentá-lo, seguindo as medidas de saúde pública, usando máscaras, desinfetantes. Tenho medo de voltar a trabalhar porque se calhar agora o meu chefe percebe que eu não sou assim tão importante? Ou porque não sei como está a empresa em termos financeiros? Então tenho de ir trabalhar em segurança, falar com a pessoa a quem reporto, perguntar em que posso ser útil, se a minha função ainda é importante ou perceber se a situação é tão grave que preciso de começar a pensar numa saída.” Tal como a alegria, a tristeza, o medo, a liberdade não se impõe. “É preciso ganhar confiança”, o que pode demorar. Até lá, a possibilidade de sair não significa que o país se sinta mais livre. Porque, como na frase imortalizada por Nina Simone, cantora, pianista e figura de proa do movimento de direitos civis nos EUA, “liberdade é não ter medo”. O estigma Luísa Santos, enfermeira de 26 anos, não consegue dizer qual a rotina de que tem mais “medo”, porque na verdade tem “medo de todas”, de andar de transportes públicos, de frequentar espaços públicos, “tudo é difícil”. Lida diariamente com doentes infetados com o vírus no serviço de Medicina Interna do Hospital de Viseu, e por isso tem receio de infetar outras pessoas. É o receio de que todos os adereços e camadas de tecidos que tem sobre o corpo quando contacta com doentes infetados no hospital, os muitos banhos e muitas trocas de roupa, ou os cuidados que tem antes de entrar em casa, “talvez excessivos” (sim, “possivelmente são”, “certamente são”, sim) para quem vê de fora, e também para quem vê de dentro, ela, que é especialista em saúde mental e sabe que “há aqui qualquer coisa de obsessivo-compulsivo”, uma necessidade quase doentia de “manter o controlo”, que tudo isso, dizíamos, não sirva para travar o vírus. “Sei que não vou conseguir continuar a fazer isto para sempre, mas é a forma que tenho de me sentir mais segura.” Luísa Santos tem colegas que já “voltaram a algumas das rotinas, que já estão com os filhos, por exemplo”, mas para ela ainda é cedo para abandonar a casa onde vive desde que se inscreveu no programa Rooms Against Covid (alojamento para profissionais de saúde), em meados de abril. “As nossas famílias têm medo de estar perto de nós, de serem infetadas, porque também elas querem voltar a sair de casa.” E o mesmo acontece com amigos e colegas. “Estamos todos os dias expostos ao vírus e afastámo-nos por causa disso. Agora que poderíamos querer reaproximar-nos, somos sempre confrontados com perguntas.” Perguntas como: “Mas sentes-te bem?”; “Tiveste algum sintoma?”; “Fizeste um teste?”, que “refletem bem o medo que as pessoas sentem de nós, e de ficarem doentes por nossa causa”. “As nossas famílias têm medo de estar perto de nós, de serem infetadas”, confidencia a enfermeira Luísa Santos Luísa Santos participou em missões humanitárias na Colômbia (onde lidou com outros vírus e doenças contagiosas) e num campo de refugiados na Grécia, mas isso não significa que se sinta mais preparada para lidar com a nova situação. “Quando vamos para fora temos uma espécie de lugar seguro para onde podemos voltar. Não quer dizer que agora não tenhamos esse lugar seguro, mas por enquanto não é seguro para outros que voltemos para ele.” É precisamente para esta questão do estigma que alerta Tiago Pereira, coordenador do gabinete de crise criado pela Ordem dos Psicólogos no contexto da pandemia em Portugal. Por causa do vírus e do impacto psicológico do confinamento, é expectável que sejam mantidos “comportamentos de evitamento” mesmo quando já não há necessidade de evitar quase nada. E às vezes, diz, “são mesmo coisas pequenas”. “Ter receio e evitar fazer certas coisas não é uma tomada de decisão muito racional, ou seja, a pessoa não pensa: ‘Olha, vem ali alguém infetado e por isso vou afastar-me ou mudar de passeio.'” Simplesmente “há automatismos que se criam, às vezes muito irracionais, em que a pessoa já está a comportar-se de determinada maneira e só depois se apercebe que está a fazê-lo”. O problema é que “muitas vezes esse comportamento é discriminatório”. “O que imaginamos não é a parte boa dos outros, é a parte menos boa. O que pensamos sempre quando nos cruzamos com alguém é que se calhar a pessoa está doente e por isso vou afastar-me.” O “medo”, diz ainda, “acaba por fazer com que adotemos comportamentos que pensamos ser de proteção, mas que vão buscar o pior das outras pessoas”. E há um lado “pernicioso” nisto, “porque ao aperceber-se de que está a ser olhada de lado ou a ser evitada, a pessoa infetada esconde que está doente, com medo de ser estigmatizada”. O medo, já se sabe, “é tão contagioso quanto o vírus”. “Eu contagio uma pessoa com medo, essa pessoa contagia outra, essa outra conta algo a alguém e imediatamente contagia-a com medo e assim sucessivamente.” A investigação já realizada sobre outras situações de crise mostra que “quase uma em cada duas pessoas tem dificuldade em entrar numa rotina de desconfinamento”. Isso significa evitar quem tem sintomas do vírus, mas em alguns casos, embora em menor número, também de quem não tem. “Assim, o que sabemos é que cerca de um quarto das pessoas evita espaços fechados e quase evita espaços abertos onde possam estar muitas pessoas juntas, como numa rua movimentada.” O que a investigação também mostra é que “ao longo do tempo, estes comportamentos tendem a desaparecer, mas há pessoas em que esse processo demora mais, porque o medo está mais exacerbado. É o caso dos profissionais de saúde e dos “profissionais que trabalham junto dos grupos de risco”, como os funcionários de lares. Ambos “estiveram muito expostos a esta situação e podem desenvolver um trauma, que terá consequências quer nos comportamentos de evitamento quer no possível aparecimento de uma perturbação psicológica mais profunda, como o stresse pós-traumático”, avisa Tiago Pereira. Até porque não é apenas o medo que domina os dias e as horas que o mundo hoje vive. Esta semana a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, deu uma frase à incerteza que também nos preenche, do cidadão mais desatento às autoridades de saúde. “Eu queria dizer isto aos portugueses: muitas vezes diz-se, e isto é assim mesmo, que a informação sobre uma epidemia só se consegue saber toda no final da epidemia.” Assim como para Graça Freitas não há epidemia sem incerteza, para o psicólogo Tiago Pereira é certo que “enquanto houver incerteza, haverá medo”. O que não significa que ele dure até que apareça uma vacina, porque “nós, enquanto seres humanos, temos uma capacidade de adaptação grande e conseguimos viver com algum nível de incerteza”. Basta pensar na população de alguns estados norte-americanos ou de países da América Central, onde quase todos os anos há furacões e fenómenos climatéricos extremos. “Essas pessoas vivem em constante incerteza e não é por isso que deixam de viver naquele contexto.” O medo foi útil no início da pandemia. “Não devemos temê-lo”, pede Filipa Machado Vaz, responsável por um projeto de apoio psicológico online Se o estado de dúvida em que vivemos neste momento é “suportável”? “Claro que não, e por isso haverá tantas pessoas a resistir voltar às suas rotinas”, garante Tiago Pereira. Em todas as áreas, mesmo as aparentemente distantes do vírus. Desde 2003 a legislação laboral portuguesa prevê a figura do teletrabalho, criada bem longe da ideia de que um dia seria quase regra. Na verdade, ainda que preparado a nível legislativo, Portugal não tem tradição de trabalho à distância, com menos de 10% dos profissionais a utilizar esse recurso, antes da pandemia, e menos de 5% de forma total e permanente (dados de 2017 da Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Trabalho, Eurofound). Quase 20 anos depois, a mudança foi imediata. “Estas [alterações à lei] que foram saindo, e foram muitas, quase diárias, eram necessárias”, considera Carmo Sousa Machado, advogada especialista em Direito do Trabalho. O acordo entre as partes que a lei previa foi interrompido, com a decisão a poder ser tomada unilateralmente. Em breve, porém, a medida deverá recuar. Quem se sentir inseguro de regressar ao escritório não terá muita escolha, a menos que o faça por acordo com o empregador, “que está obrigado a respeitar as regras da DGS”. Quem sentir que a empresa não o faz, deve denunciar. “Pode passar a haver algumas [denúncias] para ganhar tempo”, acredita Sousa Machado, que usa o exemplo da Abreu Advogados, onde trabalha, para mostrar como noutras empresas o teletrabalho, ou um sistema misto, pode tornar-se regra. Em qualquer caso, “com o que temos em termos de código de trabalho, não vejo necessidade de alterações à lei”. Com ou sem regressos forçados, o impacto psicológico da crise está já plasmado nos dados de um relatório publicado recentemente pela Organização Mundial da Saúde, onde se aponta que os sintomas de pânico e angústia aumentaram 60% no Irão, 40% nos EUA e 35% na China, três dos países mais afetados pela pandemia de covid-19. “No caso dos EUA, estamos a falar em quase uma em cada duas pessoas com esses sintomas”, diz Tiago Pereira, destacando os números que dizem respeito aos profissionais de saúde: quase metade (47%) destes profissionais no Canadá afirmou precisar de apoio psicológico. Na China, metade dos médicos, enfermeiros e auxiliares apresenta sintomas de depressão, 45% têm sintomas de ansiedade e 34% sofrem de insónia, o que equivale a “um em cada três profissionais de saúde” do país. “Com estes dados, é impossível que não haja alterações muito significativas nos comportamentos, e que vão verificar-se durante muito tempo.” Doentes sem saber Há uma fina ironia no facto de o país se ter fechado a contragosto e agora não querer abrir-se. E há uma ironia triste em estar tão preocupado com a doença e poder morrer da cura. “Em cada turno, manhã e tarde, tenho dois ou três doentes, em dez, que me contactam para não vir, ou que faltam. Alguns sem dizer nada”, confidencia o médico de família Rui Nogueira. Mesmo sem palavras, as faltas estão justificadas. “Há novos casos [de covid-19] todos os dias e aceitamos essa precaução como normal, mas temos de progressivamente criar o hábito de voltar.” Ao também presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) preocupam-no os doentes. Os que foram diagnosticados com covid-19, e que são maioritariamente acompanhados em casa, precisamente pelos médicos de família, mas também os que não foram e de que tanto ouvimos falar, idosos, grupos de risco, diabéticos, hipertensos. Mas Rui Nogueira está preocupado ainda com os doentes que não sabem que o são. “O diagnóstico inicial de cancro é uma preocupação, porque muitas vezes apresenta-se de forma capciosa, que vemos a propósito de outras coisas, que vamos investigando no doente”, explica. E isso não há videochamada que resolva, exige toque, comunicação não verbal, dúvida. E não raras vezes exames que servem o instinto médico. “Para o cancro digestivo, por exemplo, usamos endoscopias com muita frequência. Estão paradas há dois meses”, ilustra Rui Nogueira. O andar da conversa faz adivinhar a pergunta. “Quantos cancros nos estão a passar ao lado?” O presidente da APMGF arrisca entre 10% a 20% de novos doentes oncológicos que não vão saber que o são tão cedo quanto poderiam. Desengane-se, porém, quem pensa que não há histórias boas para contar nos consultórios. Rui Nogueira conta que nunca havia trocado tantos e-mails e chamadas telefónicas com pacientes seus, dos novos aos velhos, e que essa é a experiência dos mais de 5500 médicos de família do país. “Renovamos medicação, passamos receitas digitais, fazemos encontros virtuais [entre colegas] e aprendemos que há muitas coisas que podemos fazer sem a presença do doente. Adaptámo-nos”, resume. Por ora, não há salas de espera nos consultórios, as consultas têm hora marcada, os doentes, se puderem, não devem levar acompanhante e, caso a presença não seja essencial, existe flexibilidade dos médicos para que ela seja feita à distância. Mas, insiste Nogueira, “temos de começar a desconfinar o centro de saúde”. É aqui que o país agora está. Portugal entrou na passada segunda-feira na “segunda fase de desconfinamento”, com a reabertura de restaurantes, algumas lojas, creches, escolas e lares, mas há pessoas para quem o regresso às rotinas será mais lento. Filipe, o professor de quem falávamos, não só tem medo de voltar à faculdade, como também aos restaurantes. “Já me convidaram para ir almoçar e só aceito quando é numa esplanada de um restaurante que eu frequente há muitos anos e conheça o dono há 20 ou 30 anos, e até os filhos dele.” Tal como outros portugueses, Filipe continua a “viver em estado de emergência”.

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Liberdade é não ter medo

Liberdade é não ter medo Com o país há três semanas em desconfinamento, muitos portugueses resistem a voltar à rua, aos restaurantes, aos centros de saúde e até aos locais de trabalho. Tal como o vírus, também o medo é contagioso. E ainda não desapareceu Não há nada que assuste mais Filipe [nome fictício] do que voltar à faculdade onde dá aulas há vários anos. As idas ao supermercado preocupam-no, tanto é que as evita e, quando não consegue, evita pelo menos cruzar-se com outras pessoas, se vira num corredor e percebe que não está sozinho, recua e escolhe outro onde não veja ninguém. Na farmácia o mesmo, mantém-se afastado vários metros dos que estão à frente ou atrás na fila, e na rua, a que pouco sai e quando sai é apenas para um “curto passeio higiénico” à volta da casa onde vive, em Lisboa, também. “Desvio-me sempre das outras pessoas.” Na verdade, até já se habituou a isso, mas à ideia de voltar à faculdade é que não. Só de pensar nisso fica nervoso, como se o ar que sentiu faltar-lhe quando se começou a falar do vírus e de “grupos de risco” e havia “pouca informação” — Filipe, é asmático e a asma já lhe trouxe ansiedade noutras alturas —, voltasse a faltar-lhe, e voltassem também os pesadelos “estranhos” e as insónias, e voltasse a acordar todos os dias com a certeza de que todos os problemas eram, afinal, muito mais graves, porque é isso que fazem as noites mal dormidas, ampliam as coisas da cabeça — é o cansaço. Em meados de abril, o Governo deu indicações às universidades e politécnicos para que começassem a preparar o regresso às aulas presenciais a partir do início de maio. A tutela deu um prazo de duas semanas às instituições para elaborarem planos para o levantamento “gradual” das medidas de contenção aplicadas no contexto da pandemia de covid-19, devendo ser privilegiadas as aulas práticas e laboratoriais, bem como as “avaliações finais”. E são precisamente os exames que preocupam o docente universitário, de 52 anos. Tem “medo” de estar fechado numa sala com alunos, mesmo “que estes estejam de máscara”. “As turmas costumam ser enormes, 70 ou 80 alunos fechados num auditório, e isso faz-me confusão.” Lembra-se de dar testes nessas salas enormes, “e às tantas tinha de abrir as portas porque com toda a gente ali dentro a respirar parecia que faltava o oxigénio”. Da faculdade espera “sensibilidade” para lidar com este tipo de preocupações, espera que sejam tomadas medidas como, por exemplo, “reduzir a circulação de pessoas dentro do edifício para metade”. O que não lhe peçam é para “dar aulas à moda antiga”. Os dados divulgados até ao momento mostram que Filipe não está sozinho. Segundo uma sondagem realizada pelo ISCTE e pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS) para o Expresso e SIC cujos resultados foram divulgados na semana passada, a maioria dos portugueses considera “muito” ou “algo arriscado” andar de transportes públicos (89%), ir a um hospital ou centro de saúde (83%), ir a um café ou restaurante (81%), ir a um hipermercado ou centro comercial (79%), ir à praia (69%), ir a um banco ou aos correios (65%), e deslocar-se a uma mercearia ou loja de comércio tradicional (59%). A reabertura das creches (18 de maio) e do ensino pré-escolar (prevista para 1 de junho) também é vista com apreensão, e a maioria dos inquiridos considera, aliás, que é demasiado cedo para tal. A única exceção são os locais de trabalho ou “locais de estudos”, a que apenas 49% consideram arriscado voltar. A maioria dos inquiridos (53%) acredita mesmo que “não se está a esperar o tempo suficiente” antes de levantar as restrições que foram impostas para conter os casos de contágios pelo vírus. “O medo é bom” Como a generalidade dos sentimentos, o medo não tem uma ficha que o ligue e desligue. “A origem do medo, que é o vírus, não desapareceu. Ele continua cá”, lembra Filipa Machado Vaz. E se o vírus se mantém vivo, o medo também. “Durante dois meses disseram-nos que era contagioso e grave, e hoje a Direção-Geral da Saúde (DGS) continua a dar os números, as mortes, continuamos em estado de alerta. Mas o discurso mudou. É como dizer ‘estamos em guerra, mas saiam de casa'.” Doutorada em psicologia clínica, Filipa Machado Vaz é responsável pelo Acalma-online, um projeto voluntário de sessões gratuitas de apoio psicológico, por videochamada, que surgiu durante a pandemia. Em cerca de dois meses, recebeu a candidatura de mais de 200 profissionais, e pelo menos metade está a dar sessões, num total de perto de mil agendamentos. O que se ouve, aponta, é “muita gente a temer ter medo”. “O medo é bom”, garante Filipa Machado Vaz, recorrendo à metáfora. “Puseram-nos no meio da selva e gritaram ‘vem aí um leão'. É o medo que nos faz ir buscar armaduras, e dá-las a quem vai para a linha da frente, e faz os outros esconderem-se atrás da árvore. Sem medo, o leão come-nos.” Foi também por ele que se abriram hospitais de campanha, como o do Porto, onde esteve até que deixou de ser precisa. “É bom ter medo”, repete. Foi ainda o medo, algum importado das experiências de Espanha e Itália, que levou os portugueses a recolherem antes de ser o Governo a exigi-lo. Estávamos a 16 de março quando o primeiro-ministro, António Costa, deu uma entrevista ao “Jornal da Noite”, da SIC, onde abordou o que era ainda uma hipótese, apesar de muito provável: decretar o estado de emergência. Lembrando que a competência pertencia ao Presidente da República, Costa mostrava reticências e deixava avisos. “Muitas pessoas têm falado de limitar a liberdade de circulação. Olhando a prazo, porque temos de ter noção de que não estamos a falar de uma crise que dure duas semanas, mas que durará seguramente alguns meses, nós podemos ter situações inversas, que é de termos de ter meios legais para obrigar determinadas empresas a funcionar, fazer requisição civil de determinadas pessoas em certas profissões que não estejam a trabalhar ou que se recusem a trabalhar.” Premonitório? Dois dias depois, Marcelo Rebelo de Sousa decretou mesmo o estado de emergência, entretanto duas vezes renovado, até que, na madrugada de 4 de maio, Portugal passou ao estado de calamidade, um grau abaixo, exatamente dois meses após os primeiros casos positivos registados no país. E numa segunda-feira precedida de um fim de semana em que ninguém pôde circular entre concelhos, nem a pretexto de celebrar o Dia da Mãe. É nesses curtos intervalos que Filipa Machado Vaz vê parte da explicação para o atual retraimento. “Não precisamos de comunicar em opostos. Primeiro disseram-nos ‘não saiam de casa', tivemos a polícia nas ruas, quase a empurrar-nos para dentro, em alguns casos nem sequer de carro podíamos andar, não podíamos fazer nada. E, de repente, estamos a falar de recuperar o turismo e ter dois metros de distância na praia?” O medo não se liga e desliga. “Temos de pensar no quanto as emoções no discurso impactam as nossas ações.” Os portugueses fecharam-se antes de lhes pedirem, mas resistem a sair, depois de lhes pedirem. Para muitos, sobretudo para os que contactaram com o vírus ou têm histórico de outras doenças e episódios traumáticos, o desconfinamento é também interior. “Só há uma forma de lidar com o medo: enfrentando-o”, nota a psicóloga. “Tenho medo do contágio? Então devo enfrentá-lo, seguindo as medidas de saúde pública, usando máscaras, desinfetantes. Tenho medo de voltar a trabalhar porque se calhar agora o meu chefe percebe que eu não sou assim tão importante? Ou porque não sei como está a empresa em termos financeiros? Então tenho de ir trabalhar em segurança, falar com a pessoa a quem reporto, perguntar em que posso ser útil, se a minha função ainda é importante ou perceber se a situação é tão grave que preciso de começar a pensar numa saída.” Tal como a alegria, a tristeza, o medo, a liberdade não se impõe. “É preciso ganhar confiança”, o que pode demorar. Até lá, a possibilidade de sair não significa que o país se sinta mais livre. Porque, como na frase imortalizada por Nina Simone, cantora, pianista e figura de proa do movimento de direitos civis nos EUA, “liberdade é não ter medo”. O estigma Luísa Santos, enfermeira de 26 anos, não consegue dizer qual a rotina de que tem mais “medo”, porque na verdade tem “medo de todas”, de andar de transportes públicos, de frequentar espaços públicos, “tudo é difícil”. Lida diariamente com doentes infetados com o vírus no serviço de Medicina Interna do Hospital de Viseu, e por isso tem receio de infetar outras pessoas. É o receio de que todos os adereços e camadas de tecidos que tem sobre o corpo quando contacta com doentes infetados no hospital, os muitos banhos e muitas trocas de roupa, ou os cuidados que tem antes de entrar em casa, “talvez excessivos” (sim, “possivelmente são”, “certamente são”, sim) para quem vê de fora, e também para quem vê de dentro, ela, que é especialista em saúde mental e sabe que “há aqui qualquer coisa de obsessivo-compulsivo”, uma necessidade quase doentia de “manter o controlo”, que tudo isso, dizíamos, não sirva para travar o vírus. “Sei que não vou conseguir continuar a fazer isto para sempre, mas é a forma que tenho de me sentir mais segura.” Luísa Santos tem colegas que já “voltaram a algumas das rotinas, que já estão com os filhos, por exemplo”, mas para ela ainda é cedo para abandonar a casa onde vive desde que se inscreveu no programa Rooms Against Covid (alojamento para profissionais de saúde), em meados de abril. “As nossas famílias têm medo de estar perto de nós, de serem infetadas, porque também elas querem voltar a sair de casa.” E o mesmo acontece com amigos e colegas. “Estamos todos os dias expostos ao vírus e afastámo-nos por causa disso. Agora que poderíamos querer reaproximar-nos, somos sempre confrontados com perguntas.” Perguntas como: “Mas sentes-te bem?”; “Tiveste algum sintoma?”; “Fizeste um teste?”, que “refletem bem o medo que as pessoas sentem de nós, e de ficarem doentes por nossa causa”. “As nossas famílias têm medo de estar perto de nós, de serem infetadas”, confidencia a enfermeira Luísa Santos Luísa Santos participou em missões humanitárias na Colômbia (onde lidou com outros vírus e doenças contagiosas) e num campo de refugiados na Grécia, mas isso não significa que se sinta mais preparada para lidar com a nova situação. “Quando vamos para fora temos uma espécie de lugar seguro para onde podemos voltar. Não quer dizer que agora não tenhamos esse lugar seguro, mas por enquanto não é seguro para outros que voltemos para ele.” É precisamente para esta questão do estigma que alerta Tiago Pereira, coordenador do gabinete de crise criado pela Ordem dos Psicólogos no contexto da pandemia em Portugal. Por causa do vírus e do impacto psicológico do confinamento, é expectável que sejam mantidos “comportamentos de evitamento” mesmo quando já não há necessidade de evitar quase nada. E às vezes, diz, “são mesmo coisas pequenas”. “Ter receio e evitar fazer certas coisas não é uma tomada de decisão muito racional, ou seja, a pessoa não pensa: ‘Olha, vem ali alguém infetado e por isso vou afastar-me ou mudar de passeio.'” Simplesmente “há automatismos que se criam, às vezes muito irracionais, em que a pessoa já está a comportar-se de determinada maneira e só depois se apercebe que está a fazê-lo”. O problema é que “muitas vezes esse comportamento é discriminatório”. “O que imaginamos não é a parte boa dos outros, é a parte menos boa. O que pensamos sempre quando nos cruzamos com alguém é que se calhar a pessoa está doente e por isso vou afastar-me.” O “medo”, diz ainda, “acaba por fazer com que adotemos comportamentos que pensamos ser de proteção, mas que vão buscar o pior das outras pessoas”. E há um lado “pernicioso” nisto, “porque ao aperceber-se de que está a ser olhada de lado ou a ser evitada, a pessoa infetada esconde que está doente, com medo de ser estigmatizada”. O medo, já se sabe, “é tão contagioso quanto o vírus”. “Eu contagio uma pessoa com medo, essa pessoa contagia outra, essa outra conta algo a alguém e imediatamente contagia-a com medo e assim sucessivamente.” A investigação já realizada sobre outras situações de crise mostra que “quase uma em cada duas pessoas tem dificuldade em entrar numa rotina de desconfinamento”. Isso significa evitar quem tem sintomas do vírus, mas em alguns casos, embora em menor número, também de quem não tem. “Assim, o que sabemos é que cerca de um quarto das pessoas evita espaços fechados e quase evita espaços abertos onde possam estar muitas pessoas juntas, como numa rua movimentada.” O que a investigação também mostra é que “ao longo do tempo, estes comportamentos tendem a desaparecer, mas há pessoas em que esse processo demora mais, porque o medo está mais exacerbado. É o caso dos profissionais de saúde e dos “profissionais que trabalham junto dos grupos de risco”, como os funcionários de lares. Ambos “estiveram muito expostos a esta situação e podem desenvolver um trauma, que terá consequências quer nos comportamentos de evitamento quer no possível aparecimento de uma perturbação psicológica mais profunda, como o stresse pós-traumático”, avisa Tiago Pereira. Até porque não é apenas o medo que domina os dias e as horas que o mundo hoje vive. Esta semana a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, deu uma frase à incerteza que também nos preenche, do cidadão mais desatento às autoridades de saúde. “Eu queria dizer isto aos portugueses: muitas vezes diz-se, e isto é assim mesmo, que a informação sobre uma epidemia só se consegue saber toda no final da epidemia.” Assim como para Graça Freitas não há epidemia sem incerteza, para o psicólogo Tiago Pereira é certo que “enquanto houver incerteza, haverá medo”. O que não significa que ele dure até que apareça uma vacina, porque “nós, enquanto seres humanos, temos uma capacidade de adaptação grande e conseguimos viver com algum nível de incerteza”. Basta pensar na população de alguns estados norte-americanos ou de países da América Central, onde quase todos os anos há furacões e fenómenos climatéricos extremos. “Essas pessoas vivem em constante incerteza e não é por isso que deixam de viver naquele contexto.” O medo foi útil no início da pandemia. “Não devemos temê-lo”, pede Filipa Machado Vaz, responsável por um projeto de apoio psicológico online Se o estado de dúvida em que vivemos neste momento é “suportável”? “Claro que não, e por isso haverá tantas pessoas a resistir voltar às suas rotinas”, garante Tiago Pereira. Em todas as áreas, mesmo as aparentemente distantes do vírus. Desde 2003 a legislação laboral portuguesa prevê a figura do teletrabalho, criada bem longe da ideia de que um dia seria quase regra. Na verdade, ainda que preparado a nível legislativo, Portugal não tem tradição de trabalho à distância, com menos de 10% dos profissionais a utilizar esse recurso, antes da pandemia, e menos de 5% de forma total e permanente (dados de 2017 da Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Trabalho, Eurofound). Quase 20 anos depois, a mudança foi imediata. “Estas [alterações à lei] que foram saindo, e foram muitas, quase diárias, eram necessárias”, considera Carmo Sousa Machado, advogada especialista em Direito do Trabalho. O acordo entre as partes que a lei previa foi interrompido, com a decisão a poder ser tomada unilateralmente. Em breve, porém, a medida deverá recuar. Quem se sentir inseguro de regressar ao escritório não terá muita escolha, a menos que o faça por acordo com o empregador, “que está obrigado a respeitar as regras da DGS”. Quem sentir que a empresa não o faz, deve denunciar. “Pode passar a haver algumas [denúncias] para ganhar tempo”, acredita Sousa Machado, que usa o exemplo da Abreu Advogados, onde trabalha, para mostrar como noutras empresas o teletrabalho, ou um sistema misto, pode tornar-se regra. Em qualquer caso, “com o que temos em termos de código de trabalho, não vejo necessidade de alterações à lei”. Com ou sem regressos forçados, o impacto psicológico da crise está já plasmado nos dados de um relatório publicado recentemente pela Organização Mundial da Saúde, onde se aponta que os sintomas de pânico e angústia aumentaram 60% no Irão, 40% nos EUA e 35% na China, três dos países mais afetados pela pandemia de covid-19. “No caso dos EUA, estamos a falar em quase uma em cada duas pessoas com esses sintomas”, diz Tiago Pereira, destacando os números que dizem respeito aos profissionais de saúde: quase metade (47%) destes profissionais no Canadá afirmou precisar de apoio psicológico. Na China, metade dos médicos, enfermeiros e auxiliares apresenta sintomas de depressão, 45% têm sintomas de ansiedade e 34% sofrem de insónia, o que equivale a “um em cada três profissionais de saúde” do país. “Com estes dados, é impossível que não haja alterações muito significativas nos comportamentos, e que vão verificar-se durante muito tempo.” Doentes sem saber Há uma fina ironia no facto de o país se ter fechado a contragosto e agora não querer abrir-se. E há uma ironia triste em estar tão preocupado com a doença e poder morrer da cura. “Em cada turno, manhã e tarde, tenho dois ou três doentes, em dez, que me contactam para não vir, ou que faltam. Alguns sem dizer nada”, confidencia o médico de família Rui Nogueira. Mesmo sem palavras, as faltas estão justificadas. “Há novos casos [de covid-19] todos os dias e aceitamos essa precaução como normal, mas temos de progressivamente criar o hábito de voltar.” Ao também presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) preocupam-no os doentes. Os que foram diagnosticados com covid-19, e que são maioritariamente acompanhados em casa, precisamente pelos médicos de família, mas também os que não foram e de que tanto ouvimos falar, idosos, grupos de risco, diabéticos, hipertensos. Mas Rui Nogueira está preocupado ainda com os doentes que não sabem que o são. “O diagnóstico inicial de cancro é uma preocupação, porque muitas vezes apresenta-se de forma capciosa, que vemos a propósito de outras coisas, que vamos investigando no doente”, explica. E isso não há videochamada que resolva, exige toque, comunicação não verbal, dúvida. E não raras vezes exames que servem o instinto médico. “Para o cancro digestivo, por exemplo, usamos endoscopias com muita frequência. Estão paradas há dois meses”, ilustra Rui Nogueira. O andar da conversa faz adivinhar a pergunta. “Quantos cancros nos estão a passar ao lado?” O presidente da APMGF arrisca entre 10% a 20% de novos doentes oncológicos que não vão saber que o são tão cedo quanto poderiam. Desengane-se, porém, quem pensa que não há histórias boas para contar nos consultórios. Rui Nogueira conta que nunca havia trocado tantos e-mails e chamadas telefónicas com pacientes seus, dos novos aos velhos, e que essa é a experiência dos mais de 5500 médicos de família do país. “Renovamos medicação, passamos receitas digitais, fazemos encontros virtuais [entre colegas] e aprendemos que há muitas coisas que podemos fazer sem a presença do doente. Adaptámo-nos”, resume. Por ora, não há salas de espera nos consultórios, as consultas têm hora marcada, os doentes, se puderem, não devem levar acompanhante e, caso a presença não seja essencial, existe flexibilidade dos médicos para que ela seja feita à distância. Mas, insiste Nogueira, “temos de começar a desconfinar o centro de saúde”. É aqui que o país agora está. Portugal entrou na passada segunda-feira na “segunda fase de desconfinamento”, com a reabertura de restaurantes, algumas lojas, creches, escolas e lares, mas há pessoas para quem o regresso às rotinas será mais lento. Filipe, o professor de quem falávamos, não só tem medo de voltar à faculdade, como também aos restaurantes. “Já me convidaram para ir almoçar e só aceito quando é numa esplanada de um restaurante que eu frequente há muitos anos e conheça o dono há 20 ou 30 anos, e até os filhos dele.” Tal como outros portugueses, Filipe continua a “viver em estado de emergência”.